Apresentação



Comumente, o debate sobre a descriminalização do aborto se apresenta de forma dicotômica: de um lado, contra a descriminalização, argumentos religiosos, caracterizados como “conservadores”; do outro, tendo como ponto de partida a separação do Estado da religião, os argumentos laicos, politicamente “liberais”, ou mesmo “progressistas”. Esta dicotomia empobrece o debate e mascara o fato de que há outra forma de se abordar o tema, uma linha de pensamento que, com argumentos laicos e politicamente progressistas, manifesta-se absolutamente contrária à legalização do aborto.         
A pobreza com que o tema é abordado promove uma associação automática entre aqueles que defendem o Estado laico e o desejo da descriminalização do aborto e, por outro lado, entre aqueles não desejam a descriminalização e o obscurantismo religioso ou conservadorismo político. A bandeira da descriminalização é carregada por grupos políticos “progressistas”, como o movimento feminista e a intelectualidade de esquerda em geral. Ela também se associa, em geral, ao liberalismo político, que tem na separação entre Estado e Igreja, ou no laicismo, um de seus princípios.  Entre as forças políticas mobilizadas contra a descriminalização, não obstante o caráter laico ou não dos Estados onde atuam, certamente a Igreja Católica se destaca. Seus argumentos contrários à descriminalização, não raro, apresentam-se associados a opiniões extremamente anacrônicas sobre a sexualidade, como a reprovação ao homossexualismo, ao uso de métodos contraceptivos e à educação sexual de crianças e adultos.  Outras Igrejas cristãs, especialmente as evangélicas, opõem-se, em maior ou menor grau, à descriminalização.

Certamente, aqueles acostumados com a dicotomia acima apresentada surpreender-se-iam com o fato de que a maioria dos ateus brasileiros, conforme pesquisa realizada pelo Datafolha em 2006, são contrários à descriminalização do aborto. Certamente também achariam contraditório que adeptos do liberalismo político e do laicismo, ou mesmo socialistas declarados, desfraldassem a bandeira contrária à descriminalização do aborto, e o fizessem, exclusivamente, com argumentos laicos. Pois é exatamente este o tema deste blog. Mostraremos, em diversos textos, nos quais citaremos autores e pensadores, expoentes do pensamento laico, do liberalismo político, do ateísmo e do progressismo, que a oposição à descriminalização do aborto não deve estar associada, automaticamente, ao obscurantismo religioso ou ao conservadorismo político. Pelo contrário, procuraremos demonstrar que a descriminalização do aborto, longe de ser um avanço político, representa, na verdade, um lamentável retrocesso civilizatório, digno do mais torpe reacionarismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário