domingo, 19 de janeiro de 2014

Vidas indignas de serem vividas “Lebensunwertes Leben”


Um dos argumentos mais comuns entre aqueles que defendem a legalização do aborto é o de que, dadas as precárias condições materiais dos pais (ou apenas da mãe, quando esta não possui um companheiro),  seria preferível, do ponto de vista da sociedade (e até do nascituro) que determinados indivíduos simplesmente não nascessem.  Pois, se o fizessem, suas vidas ou a de seus pais seriam tão ruins, que o aborto seria certamente uma alternativa mais viável. Essas pessoas, que insensatamente consideram-se progressistas, não percebem o quão arcaico ou reacionário é este pensamento, cuja lógica é a mesma utilizada pelos nazistas em suas políticas de higiene racial .

A simples possibilidade de que determinada vida humana não possua o direito de viver, e que isso seja benéfico à sociedade, remonta à expressão em alemão “Lebensunwertes Leben”, ou “vida indigna de ser vivida”. Este foi um dos dogmas utilizados pelo nazismo para legitimar o genocídio de milhares de pessoas nas regiões dominadas pelo Terceiro Reich.  De acordo com o ideal eugenista, que pregava a depuração da espécie humana na busca de uma raça pura e superior, determinadas vidas simplesmente eram indignas de serem vividas, pois atrasariam o progresso da humanidade. Desta forma, seria legítimo e benéfico à sociedade que tais vidas fossem eliminadas e, do ponto de vista destas vidas, seria até um ato de “solidariedade”, pois seriam livradas do fardo de uma indigna e inútil existência. Para tanto, práticas como a esterilização, o aborto, a eutanásia e o extermínio eram justificadas. O dogma também legitimava os experimentos com cobaias humanas.  Para os nazistas, vidas indignas de serem vividas eram as dos judeus, homossexuais, ciganos, negros, doentes mentais e portadores de deficiências genéticas.

Ativistas pró-aborto não se acanham ao lembrar o quão miseráveis seriam as vidas de certas crianças (ou a de seus pais) caso viessem a nascer. E argumentam que, agindo assim, estão lutando por “direitos humanos”.  O argumento a favor da legalização do aborto carrega, de fato, o mesmo princípio do “Lebensunwertes Leben”. Arbitrariamente, os benefícios que o aborto legal traria à sociedade, tais como o controle de natalidade, redução das despesas com saúde pública, diminuição da pressão por políticas sociais, escolas ou creches; ou aos pais, como o não comprometimento de suas finanças, evitar dificuldades à carreira, não perder a “liberdade” da juventude etc., justificariam o fato de que determinadas vidas não tivessem o direito de ser vividas.  Não obstante os benefícios usados para justificar vidas não dignas de serem vividas atualmente sejam diferentes dos utilizados pelo nazismo, a lógica do argumento pró-aborto é a mesma usada nas políticas de higienismo racial do Terceiro Reich.


Há, atualmente, um grande esforço ideológico para associar a legalização do aborto ao pensamento progressista, mas um mergulho pouco profundo na história demonstra que esta associação é um equívoco. O que se promove é uma tremenda confusão de ideias. Ser pró-aborto não significa, absolutamente, ser moderno, progressista ou alinhado aos direitos humanos. Ao contrário, a possibilidade de negar a um ser humano o direito à vida, sob o argumento de que isso seria benéfico à sociedade, à família, ou ao mercado, remonta a práticas sociais arcaicas e reacionárias, digna de sociedades autoritárias e historicamente desconectadas do respeito e da dignidade humanas. 

Um comentário: