sexta-feira, 19 de julho de 2013

Comentário ao texto "Pró-vida de quem?" de Clara Averbuck.


Recentemente, no Chile, veio à tona o caso no qual uma menina de 9 anos foi estuprada sistematicamente, por dois anos, pelo padrasto. A menina engravidou e, com 11 anos, está disposta a ter o bebê, mesmo contra a indicação dos médicos. O caso se tornou ainda mais polêmico porque a mãe da menina disse que o sexo entre padrasto e menina foi “consensual”, e o presidente do Chile saiu a público defendendo a decisão da menina. Certamente este é um caso escabroso e revoltante, que motivou um grande debate no Chile sobre a questão do aborto terapêutico, ainda não previsto em lei, que seria autorizado quando a gestante corre risco de vida – talvez o caso de uma menina de 11 anos grávida.

O caso motivou a escritora Clarah Averbuck a publicar um artigo bem visceral no site da Revista Carta Capital. O artigo, chamado “Pró-vida de quem?”, atraiu centenas de comentários, muitos passionais, feitos por defensores e críticos da descriminalização do aborto. Abaixo está o meu comentário, que, essencialmente, critica o fato de a autora ter se valido de um caso extremamente comovente para disparar algumas críticas generalizantes àqueles que se opõe à descriminalização do aborto. Da mesma maneira que creio que o assunto não deva ser tratado de maneira simplista, como quando prensado na eterna dicotomia “religiosos” versus “laicos”, creio que artigos emocionais também empobrecem e limitam o debate.


Segue o comentário:

A violência a que foi submetida essa menina chilena é revoltante, ainda mais quando perpetrada pelo padrasto, com apoio da mãe. No entanto, a exemplo do que costuma fazer a direita reacionária, que, alheia a quaisquer estatísticas, utiliza casos isolados de crimes cometidos por menores, causadores de comoção pública, para justificar os medos da sociedade e, assim, introduzir no debate retrocessos conservadores como a redução da maioridade penal e a pena de morte, a autora, dogmaticamente, procura canalizar toda a comoção do caso desta menina para desqualificar aqueles que são contrários à legalização do aborto, e o faz, não criticando seus argumentos, mas por meio de generalizações. 

Sua revolta é entendível, mas o debate emocional, para tratar de tema tão complexo e controverso, não é aconselhável.. Tanto é assim, que o texto, infelizmente, carrega algumas impropriedades, como a omissão do fato de que a idade gestacional para o aborto, nos países em que é legal, varia. Ela não é sempre de 12 semanas. No Canadá, por exemplo, não há limite gestacional. No Reino Unido, o aborto pode ser feito até a vigésima quarta semana, na Suécia e Nova Zelândia o aborto é permitido até a vigésima segunda semana. Perceba-se que, nestes países, abortam-se bebês já capazes de sobreviver em incubadoras, uma violência que em nada deixa a dever àquela sofrida pela menina chilena. 

E por falar em violência contra as mulheres, em todos estes países cresce preocupantemente o número de abortos seletivos por sexo, feitos por casais que preferem ter filhos homens, tal qual ocorre em sociedades ultramachistas como a indiana e a chinesa. Lembremos que o sexo do bebê, graças a inovações tecnológicas na medicina, já é detectável a partir da 8ª semana de gestação, e o aborto seletivo por sexo é certamente uma das maiores violências
já praticadas contra o gênero feminino, normalmente omitida nos textos dos ativistas pró-descriminalização. 

Outra afirmação disparatada no texto da autora diz respeito à morte cerebral de pacientes moribundos. Não é possível, razoavelmente, comparar uma vida humana em seu princípio com uma que está em seu final.
Pacientes com morte cerebral, se deixados, falecerão; nascituros poderão se tornar crianças. Eli Vieira, o geneticista citado, vai mais além. Em seu blog, compara zigotos e embriões em gestação a células quaisquer do corpo humano, como cutículas, tufos de cabelo, óvulos descartados em menstruação, esperma de masturbação etc. Ora, não precisamos estudar biotecnologia para perceber que este é um argumento que beira o absurdo: seria como afirmar que, se deixados em paz, cutículas e tufos de cabelo pudessem se desenvolver e se tornar seres humanos.

Não devemos desmerecer a autora, que exerce um belíssimo papel como ativista pelos direitos das mulheres, escrevendo artigos brilhantes, ou o médico citado, que possui um invejável currículo e certamente grandes contribuições à ciência, no entanto, temos de ter em mente que esse debate é muito sério para ser travado de forma emocional e com argumentos, lamentavelmente, tão fora do lugar. Se vamos debatê-lo, façamo-lo com ideias, com razoabilidade, com argumentos preferencialmente laicos e, principalmente, com respeito.


Autor do blog - ateus contra o aborto.

Um comentário:

  1. Excelente teu comentário, acabei de ler no site da CC.

    Os religiosos erram ao se posicionar contra a legalização falando em alma, deus etc.

    Mas o movimento feminista erra ao chamar quem é contra a legalização de pró-morte. Haja paciência para tanta emoção... Faz tanta campanha pró-aborto, mas poucas, ou nenhuma, pelo fácil acesso aos diversos meios contraceptivos... É uma falta de lógica defender que as mulheres podem abortar, já que abortar tem riscos e dor, mas não falar nada a respeito da responsabilidade de quem faz sexo, homem ou mulher. Me lembra muito Admirável Mundo Novo: sociedade sem dor, sem sofrimento, sem laços afetivos (mãe e nascer eram os piores palavrões, sair mais de 2x com alguém era pecado) = pessoas totalmente infantilizadas.

    Ok, já sei que o corpo é da mulher, mas o feto não é o corpo dela. Já sei que ela não tem culpa por ter engravidado, mas o feto tampouco tem. Botamos na balança: liberdade de deixar seu útero vazio X vida futura de um filho. Com tantos métodos para evitar a existência desse 'parasita', defender o aborto é no mínimo anacrônico.

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