domingo, 6 de janeiro de 2013

As ideias fora do lugar da Igreja Católica


A Igreja Católica é um dos atores políticos mais ativos na luta contra a descriminalização do aborto. Sua posição, de preservação da vida desde a concepção, remonta aos primeiros anos do cristianismo. No entanto, atualmente ela se sustenta pela Encíclica Humanae Vitae, de 1968, que trata sobre o controle de natalidade e associa a proibição do aborto a outros dogmas nada aderentes ao modo de vida pós-moderno, como a proibição do sexo fora do casamento e o uso de métodos contraceptivos. A Igreja também combate o homossexualismo e a educação sexual de crianças e adultos. Tal postura, além de contribuir diretamente para o aumento de gravidezes indesejadas no planeta (o que fatalmente implica maior número de abortos, legais ou não), estigmatiza os argumentos válidos contrários ao aborto, associando-os ao obscurantismo religioso.  A postura da Igreja Católica, portanto, acaba por prejudicar seus próprios argumentos, e não ajuda no combate à descriminalização do aborto.

A crença de que a vida humana deve ser preservada desde a concepção se sustenta, dogmaticamente, desde os primeiros séculos do cristianismo. A Didaché, ou Didaquê, texto conhecido como os “ensinamentos dos doze apóstolos”, que data do primeiro século do calendário cristão, faz a primeira referência explícita à proibição do aborto. Santo Agostinho, no século IV, entendia que a vida humana iniciava-se em momento distinto do da concepção, o que gerou algumas controvérsias, ao longo da história, sobre a partir de que momento o aborto seria considerado pecado. No entanto, houve várias manifestações oficiais da Igreja, ao longo dos séculos, proibindo o aborto, definindo-o como pecado associando-o ao assassinato. No século XIX, em clara reação à secularização do direito penal, que se disseminava na Europa pós Napoleônica e que, em alguns lugares, descriminalizava o aborto, o Papa Pio IX passou a aplicar a pena de excomunhão àqueles que o praticassem.

Atualmente, a encíclica Humanae Vitae, publicada em 1968, pelo papa Paulo VI, sustenta os dogmas católicos contra o aborto. A encíclica, que trata sobre a regulação da natalidade, é extremamente polêmica, pois, além de proibir o aborto, proíbe os métodos contraceptivos como o uso de preservativos, pílulas, vasectomias, ligação de trompas e outros, considerados práticas maliciosas. A Igreja também condena: o sexo fora do casamento; o homossexualismo; a reprodução assistida (bebês de proveta); pesquisas com células tronco; e a educação sexual, o que demonstra imensa desconexão desta instituição com a realidade pós-moderna.

A Igreja, ao buscar interferir, de modo tão conservador e anacrônico, nas mais diversas questões referentes ao comportamento sexual humano e na vida privada da humanidade, costumeiramente, atuando na política para pressionar governos laicos ou não a legislarem sobre estes temas, acaba por gerar contra si uma animosidade, que é facilmente entendível, por parte dos cidadãos que não concordam com aqueles preceitos. Não raro, grupos de católicos mundo afora declaram sua discordância com a posição da Igreja em diversos assuntos, inclusive sobre o aborto. E esta animosidade obscurece o debate sobre a questão, pois associa o combate à descriminalização ao anacronismo dos dogmas católicos sobre a sexualidade.

Além disso, as posições católicas, como a condenação do uso de métodos contraceptivos ou, mais grave, a educação sexual de adultos e crianças, contribuem com o aumento de gravidezes indesejadas. A ignorância e a falta de acesso a meios contraceptivos eficazes estão, obviamente, entre as principais causas das gravidezes indesejadas atualmente.  E, obviamente, a causa primeira da realização de um aborto, seja legal ou ilegal, é a gravidez indesejada. A Igreja Católica, ao condenar o uso de meios contraceptivos, ao combater políticas públicas de distribuição destes meios e ao pressionar governos e colégios mundo afora para não promover educação sexual, simplesmente, contribui para aumentar a ocorrência de abortos no planeta, o que demonstra uma contradição imensa entre a retórica e seus resultados. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário